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Curitiba, 21 de setembro de 2017
 
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Data: 07/06/2013 - 09:55:03

As cores de Violeta Franco (1931-2006)

  • Obra de Violeta Franco, sem data, acrílica sobre tela, 96,7 x 130,2 cm. (Foto - Acervo do Museu de Arte Contemporânea do Paraná – MAC)
  • No centro da foto, a artista Violeta Franco. Ela está acompanhada por Francisco Souto Neto e Nely Almeida. A imagem foi originalmente publicada no jornal Indústria e Comércio, na coluna Expressão e Arte, assinada por Souto Neto. (Foto – Reprodução Acervo Digital Francisco Souto Neto).
Violeta Franco foi personagem fundamental para a incorporação de concepções e práticas modernistas na arte paranaense da segunda metade do século XX. Em agosto de 2008, a Câmara Municipal homenageou a artista indicando que um logradouro da cidade passasse a se chamar Maria Violeta Franco de Carvalho (Lei 12.869, de 28 de agosto de 2008). A proposição foi da vereadora Julieta Reis, mesma parlamentar que, dois anos antes registrou o aniversário de 80 anos de Violeta aprovando em plenário Votos de Louvor e Congratulações à artista.

“Era uma garagem grande, dividida em três partes. Eu tinha uma parte dessa garagem, meu tio me deu pra fazer... Porque era uma forma que a minha família via de eu não sair de casa... Eu era rebelde (risos), andava com telas embaixo do braço, andava pra lá e pra cá. Eles acharam que assim seria melhor”, declarou Violeta Franco numa entrevista concedida em 2001 para a pesquisadora Katiucya Périgo. A garagem ficava no interior de uma chácara na Avenida Iguaçu, que pertencia ao avô de Violeta, o advogado Manoel Vieira Barreto de Alencar – um dos fundadores da UFPR. A partir de 1949, passou a ser o ateliê da jovem que, aos 17 anos, já fora aluna do mestre Guido Viaro e também receberia instruções de Poty Lazarotto sobre a gravura e suas técnicas.

Aos poucos o local se tornou uma referência para conversas informais sobre os caminhos da arte. Se na Europa o movimento abstracionista já ameaçava o modernismo, em Curitiba, a influência acadêmica de Alfredo Andersen (o “pai da pintura paranaense”) era imperiosa. Quem pretendesse ser levado a sério como pintor ou escultor em Curitiba, deveria estar enquadrado no modelo legado pelo pintor norueguês, radicado em Curitiba no ano de 1906 e falecido em 1935. Foi nesse clima de ruptura que surgiu a “Garaginha” de Violeta Franco.

“A Garaginha passou a ser o ponto de encontro de intelectuais, de artistas, de pessoas que passavam por aqui como Mário Cravo, Sérgio Milliet e uma série de outras pessoas que traziam luzes à escuridão, porque volta e meia vinham e conversavam, e mostravam o que faziam. (...) Alguns amigos também (...) passaram a freqüentar aquele local onde a gente tinha um coquetelzinho e todo um charme, porque o chão e as paredes eram forrados de esteira – que era uma coisa absolutamente escandalosa para a época – e a gente ficava descalço e sentado no chão em almofadas; tudo isso era um clima muito agradável, muito interessante e diferente de Curitiba”, diz o também artista plástico Fernando Velloso, em depoimento para estudo do pesquisador Artur Freitas.

Até indivíduos que não pertenciam ao ambiente artístico iam à Garaginha para se inteirar das novas ideias, ou mesmo apresentá-las aos jovens iconoclastas. Era esse o caso do industrial Mário Romani, que sempre voltava de suas viagens à Europa munido de revistas e livros sobre arte moderna, que eram consumidos avidamente pelos frequentadores da Garaginha.

Segundo Violeta, a Garaginha não durou mais que três anos e, apesar da informalidade, serviu para gestar projetos importantes como o Clube de Gravura de Curitiba, organizado por Violeta e por Alcy Xavier nos subterrâneos da então recém-fundada Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). O projeto tinha por molde o Clube de Gravura de Porto Alegre, dirigido por Carlos Scliar. Posteriormente, em 1951, o Clube se tornaria o Centro de Gravura de Curitiba, entidade de utilidade pública que tinha a participação dos artistas Nilo Previdi, Loio Pérsio (então casado com Violeta), Violeta Franco, Alcy Xavier, Blasi Jr, Gastão de Alencar, Jiomar José Turim, Osmann Caldas e Emma Koch.

Ruptura
O clima de ruptura entre tradicionalistas da arte paranaense e modernistas estava instalado e vozes descontentes se manifestavam de modo mais direto, como foi o caso do então jovem Dalton Trevisan (21 anos), que à frente da revista Joaquim, desferiu fortes golpes contra nomes consagrados da cultura paranaense como o poeta Emiliano Perneta e o próprio Alfredo Andersen.

Andersen foi o vetor para que muitos outros talentos se consolidassem no Paraná do começo do século XX. João Turin, Zaco Paraná, Lange de Morretes, Maria Amélia D’Assumpção, Miguel Bakun e os próprios Guido Viaro e Poty trabalharam, de alguma forma, sob a perspectiva que Andersen criou para a arte no Paraná. A influência foi tão forte e duradoura, que por anos freou a inserção de outras escolas e formatos artísticos, daí a importância de iniciativas como a Garaginha e como a galeria “Cocaco” (nome de um formão de origem alemã), a primeira galeria de Curitiba, criada pelos mesmos proprietários de uma fabriqueta de molduras na rua Ébano Pereira.

Se as ideias modernistas na arquitetura foram bem aceitas e incorporadas até na construção de edifícios públicos, o mesmo não se pode dizer de outras manifestações como as artes plásticas e a literatura. O clima de conflagração atingiu o ápice em 1957, quando os responsáveis pela organização do XIV Salão Paranaense excluíram da mostra e das premiações as pinturas com viés modernista.

Foram classificadas apenas as tradicionais paisagens e retratos paranistas. Paul Garfunkel, pintor que pertencia à geração anterior, mas que simpatizava com os jovens, rasgou sua premiação e retirou seus quadros da parede, gesto que foi seguido por muitos outros que também não concordavam com as diretrizes do júri. Loio Pérsio, um dos participantes, chegou a publicar naquela mesma semana um manifesto intitulado “XIV Salão Paranaense, ou a burrice oficializada”. As obras modernistas preteridas pelo júri foram expostas como protesto no hall de entrada da Biblioteca Pública do Paraná, sob o título “Salão dos Pré-Julgados”.

Violeta neste momento estava em São Paulo, estudando, participando de mostras coletivas e individuais. Colaborou com a artista Miriam Xavier Fragoso numa escola experimental, prática que anos depois desenvolveria no Centro de Criatividade no Parque São Lourenço em Curitiba. Esse acúmulo de vivências e experiências profissionais possibilitou à Violeta condições para dirigir o setor de gravuras da Fundação Cultural de Curitiba ao longo dos anos 1970 e meados dos 1980. Esteve envolvida inclusive com a criação do núcleo de gravura instalado no Solar do Barão.

Cores
Em depoimento para a Revista de Arte (Curitiba, 2001), o estudioso Fernando Bini fez algumas considerações sobre a pintura de Violeta Franco. “O tema do quadro passado para o segundo plano, Violeta vai em busca das massas coloridas, dos ritmos das cores, ao encontro da luminosidade. A coerência expressionista se mantém mas o seu espírito irrequieto leva sua obra a se fundamentar na mudança, nas mutações, nas metamorfoses. As texturas densas e as cores soturnas se tornam mais simples, mais chapadas, mais planas, mais luminosas e, com Delaunay, ela descobre o papel fundamental da cor na prática pictural, que guardam do expressionismo a gestualidade: as vezes são pictogramas circulares ou elípticos outras vezes formas geometrizadas próximas do graffiti, pinceladas translúcidas e cromatismo sutil com um intenso sentimento de natureza”.

Além da sua presença na história das artes plásticas em Curitiba e no Paraná, Violeta também marcou presença pelo seu comportamento simples e despojado. Na mesma entrevista concedida em 2001 ela declarou: “eu era desse jeito que eu sou até hoje, mas... (rindo) os outros é que eram mais quietos, mais enquadrados, eu era até tímida... Agora, sempre tentei fazer aquilo que eu achava que devia fazer”.

Por João Cândido Martins

Referências Bibliográficas

“Ser visto é estar morto: Miguel Bakun e o meio artístico Paranaense (1940-1960)”, dissertação de mestrado apresentada por Katiucya Périgo na Pós Graduação em História da UFPR, em 2003. (Link aqui)

“A consolidação do moderno na história da arte do Paraná, anos 50 e 60”, artigo escrito por Artur Freitas para a Revista de História Regional, n° 8. Publicada pela UEPG, em  2003.(Link aqui)

Enciclopédia Itaú Cultural – Artes Visuais. Verbete: Franco, Violeta.
(Link aqui)

“Artes e amores de Violeta, a rebelde”, artigo de Aramis Millarch, publicado originalmente no Jornal O Estado do Paraná, em 02/04/1991.
(Link aqui)

“Violeta Franco, a natureza por expressão”, artigo de Fernando Bini publicado na seção Lendo Arte, do Museu Virtual (Muvi). (Link aqui)

“Os Moços na Província: a revista Joaquim e o campo literário no Paraná”, de Natália Romanovski. Trabalho de conclusão de curso apresentado na Graduação em História, da UFPR, em 2008.
(Link aqui)



 
Reprodução do texto autorizada mediante citação da Câmara Municipal de Curitiba.


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